segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Às vezes penso



Às vezes penso que não há chuva que me chegue, momentos que me bastem, nem sequer recordações de risos que me preencham. Por outras palavras: sinto-me permanentemente vazio mas, simultaneamente, com um estranho lastro que me impede de voar, sequer andar, sequer querer o que quer que seja, adiando-me para outro século.

Às vezes também penso que seria fácil desculpabilizar-me, desculpabilizar-te, dizer a mim mesmo (dentro do espírito de “o copo partiu-se”, como se existissem copos com instintos suicidas…) que as decisões se tomaram, em vez de assumir que foram efetivamente tomadas ou, no mínimo, aceites. Também seria fácil ficar à espera que algo acontecesse, tentando apenas manter-me à tona da mágoa, não me asfixiando na angústia enquanto teu nome placidamente me percorre as veias, como lâmina sem destino.

Mas, felizmente, às vezes não penso. Por isso deixo-me arrastar pela suave ondulação do rio que foi nosso por breves mas incendiados momentos, pelas invisíveis correntes com que ele me abraça e que, todos os dias, inexplicável e implacavelmente, me arrastam até teus lábios de nuvem distante, onde me afogo lentamente com um ingénuo sorriso de criança.

Confesso também: às vezes não penso em mais nada que teu corpo que, num estranho parto e em dias de milagre, nasce dos meus olhos sob a forma de lágrima. E aí espero – por mais que eu o queira racionalmente contrariar - de novo por ti. Por ti Mulher, por ti Sonho, por ti Desejo – seja o que for, no entanto por certo maiúsculo.



terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Élio Isidoro Catalão Marofas



Élio Isidoro Catalão Marofas abominava o seu nome. Nunca se conformou com a bizarria que aflorara a mente da sua mãe, aquando do momento do seu batismo, que se lembrara de o presentear com tal graça. Há muito tempo que sentia bastante desconforto, associado a uma sensação de cansaço, falta de energia e vitalidade, para realizar as suas atividades habituais. Quando lhe perguntavam o que se passava, respondia que não era capaz de explicar. Mas não se sentia bem. Desde há um tempo, começara a colecionar objetos antigos e apenas se interessava por discussões e leituras sobre o tema. Comummente, em conversas entre amigos da sua geração, recordava a sua infância e juventude e os produtos culturais da época, os tempos em que fora realmente feliz. Entabulava este tipo de conversas como uma forma de escapismo e o presente pouco lhe interessava. Os outros escutavam-no, sabendo-o um bom orador e peroravam para que continuasse.
 
A saudade é o que fica daquilo que partiu, dizia ele, daquilo que já não é mais. Saudade é ausência, é o sentimento de vazio que fica daquilo que se foi. Mas às vezes, a saudade é um vazio tão grande que ocupa muito espaço dentro do coração, e aperta tanto o peito que acaba transbordando e escorrendo pelos olhos. São as lágrimas, o líquido precioso que escorre em abundância. Dizem que a palavra saudade, bem portuguesa, não tem tradução noutras línguas. Eu concordo em absoluto. Há quem diga que é sinónimo de nostalgia, mas, no rigor dos termos, não é verdade. Nostalgia representa mais uma sensação de saudade idealizada, por vezes irreal, por momentos vividos no passado, associado a um desejo sentimental de regresso. A idade traz-nos a saudade dos momentos vividos na nossa juventude, quando ser feliz era fácil com tão pouco e tudo era uma descoberta.
 
E o presente, a esperança, Marofas? – Perguntavam-lhe os amigos.

O presente é para mim uma espera por nada, uma delonga desnecessária, acrescentava ele. Toda a minha vida boa se desenrolou no passado. O que se passa agora já não me diz respeito. Limito-me a sobreviver. Camus dizia que toda a infelicidade dos homens nasce da esperança. A esperança é o começo da morte. A minha infelicidade começou quando cresci, quando perdi a inocência das coisas. Se não esperançarmos não nos faremos infelizes. E é possível viver num mundo que existe apenas dentro da nossa mente, alheios ao que nos rodeia no exterior. Num certo momento da vida, não é a esperança a última a morrer, mas a morte é a última esperança.
 
E porque não te matas, Marofas? Porque não colocas um ponto final nesse teu atroz sofrimento de viver? – Perguntavam-lhe os amigos. Porque não tenho a coragem de ser coerente a despeito de estar ciente desta forma de pensar, dizia ele.
 
As conversas decorriam habitualmente à mesa de um café, cercados pelo ruído provocado pelas vozes dos clientes e do trânsito que corria incessante na avenida principal. As palavras de Marofas soavam a um longo solilóquio. Uma espécie de declamação subjetiva que não incitava à participação dos outros tertulianos.
 
Já tinha passado mais de um mês desde a sua última preleção. Na mesa do costume, a mais perto da porta de saída, os convivas habituais estavam quase todos presentes. Comentava-se, ainda, a tragédia. A coragem, infelizmente, surgiu-lhe. A necessidade de buscar a morte como um refúgio para um sofrimento que se lhe tornara insuportável. Um mergulho para o nada. Ainda custava a acreditar. Élio Marofas ingerira mais de 100 comprimidos de Orfidal, uma benzodiazepina que proporciona relaxamento muscular, sedação e efeito tranquilizante. Encontraram-no, passadas duas semanas, morto, na cama, meio despido e em adiantado estado de putrefação.
 
À mesa, nesse dia, todos os restantes tertulianos concordavam que a esperança corresponde à aspiração de felicidade existente no coração de cada pessoa e que quem perde a esperança mais profunda, perde o sentido da sua vida; e sem esperança viver não tem sentido. Faltava, no entanto, alguém com poder oratório capaz de verbalizar esse ensejo por todos partilhado e de sustentar com firmeza essa tese. Todos concordavam que ao Élio tinha faltado a esperança e uma eventual vacina contra o desânimo, capaz de lhe fazer desejar viver e esperar a felicidade. A necessidade da esperança era um dogma por todos aceite, bem como a validade do ato de viver. A pergunta surgia então como inevitável: haveria algum deles, em algum momento, capaz de verbalizar tão bem quanto o Élio este sentimento por todos partilhado? Ou seria fatalmente necessário ser-se como ele: deprimido, desesperançado e nostálgico, para possuir a verve necessária à boa prosa das palavras certas e incertas?


segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Pingo Doce - Heróis de Angola





Apesar de nesta vida já ter palmilhado quase seis décadas e da miséria, os infortúnios, a dor, as injustiças e, de um modo geral, o sofrimento, próprio e/ou alheio, não constituírem surpresas para mim, ainda não perdi a capacidade de me espantar com certas coisas. O que faz um jovem, com vinte e poucos anos, sentado no chão, à porta do Pingo Doce, acompanhado de um pincher empoleirado num banco, tocando acordeão? Pede dinheiro, com certeza. Mas porque motivo? Qual a sua história de vida que o fez desviar-se dos percursos normais da maioria dos jovens: estudo, trabalho, estruturação de bases sólidas para a sobrevivência em sociedade? O que foi feito pelas nossas instituições, na sua grande maioria, sustentadas pelos nosso impostos, para ajudar este jovem?

Na Europa Comunitária animam-se processos para a criminalização dos Sem-Abrigo e dos pedintes, como se, ser Sem-Abrigo – não ter teto nem casa – fosse um crime! Assiste-se, em muitas áreas, a verdadeiros retrocessos civilizacionais, como se o azar não pudesse, um dia, bater à porta de qualquer um de nós!

Há exemplos, bem concretos, da aplicação de sanções para mendigos, e para quem os ajude: a proibição da mendicidade e a criminalização de quem pede esmola na Noruega, por exemplo, é uma amostragem da perseguição e da criminalização de que têm sido alvo os Sem-Abrigo na Europa. Em Setembro de 2013, o Parlamento Húngaro aprovou legislação que permite aos seus municípios impor multas, serviço comunitário e até pena de prisão, a pessoas sem-abrigo. O presidente da Câmara de Verona – Itália – diz que os Sem-Abrigo são “uma ameaça à saúde pública”, pelo que, quem decidir alimentá-los, incorre numa multa entre 25 e os 500 euros!

Em Portugal, algumas pessoas, de grande responsabilidade nas áreas sociais, recomendam “bom senso”. Eu alinho nesse tom, totalmente. O que é preciso é mesmo isso. Indagar sobre cada caso, com as suas particularidades - não há histórias de vida iguais - e tudo fazer para ajudar quem carece de apoios.

Mais de 46 anos da minha vida foram passados em Lisboa e nos seus arredores, onde os problemas sociais são bastante mais sérios do que em Leiria. Habituei-me a ver, no dia-a-dia, a miséria nas suas formas mais sórdidas, mas nunca perdi a capacidade de me indignar. Uma pessoa que dorme na rua e se alimenta dos caixotes do lixo (visões muito comuns na Lisboa dos anos 80), hordas de Sem-Abrigo, fazendo das arcadas do Terreiro do Paço o hotel dos desafortunados da vida, todas as noites envoltos em mantas mal cheirosas e pedaços de cartão, ou agora um jovem de tenra idade a pedir esmola, são situações que deveriam envergonhar quem administra o nosso dinheiro e o gasta com primazia em subsídios tauromáquicos e outros degradantes espetáculos perdulários. Urgente e primordial é isto!

Leiria, Avenida Heróis de Angola, 09122019

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Seeking Sole Mates



Li algures sobre um método infalível para encontrar o par da meia perdido. A ideia básica é separar em categorias - por exemplo, cores. Começa-se por dividir as meias assim: uma pilha de meias cinzas, outra com as pretas e uma terceira para as brancas. Depois, escolhe-se outro critério, como o comprimento.

Isto não é mais do que a aplicação do método dedutivo (do geral para o particular), ou a modalidade de raciocínio lógico que faz uso da dedução para obter uma conclusão a respeito de determinadas premissas - no caso em apreço aplicado a meias.


Mas, sem ofender as premissas da Lógica, que muito respeito, acabei de adotar um método amplamente mais eficaz. Caso demore muito tempo a encontrar o par da meia, coloco as meias perdidas num saco de plástico, a aguardar as que virão de novas lavagens. Se jamais aparecer o par correspondente, passam à categoria utilitária de panos para engraxar, ou coisa que o valha. Mas mais eficaz do que todos os métodos, a partir de hoje só compro meias rigorosamente iguais. É a chamada solução final.

Esplanada do Central



A esplanada do Café Central de Almada, lugar de pouso do outono da minha infância e, posteriormente, de grande parte da minha juventude, à tarde, é lugar de suecada. Sexagenários e septuagenários, em alegre algazarra, competem por moedas, com assistência dos jogadores de bancada - que ora apupam uns, ora incitam outros. Quem diria que este celebérrimo café estaria destinado a transformar-se numa arena, onde idosos se batem fervorosamente pelos ases e pelos trunfos numa gritaria insana e ensurdecedora?!


Em meados dos anos 70, durante os anos 80 e até ao início dos anos 90, a esplanada do Central acolheu intelectuais, drogados, traficantes, estudantes, professores, ladrões, parasitas sociais, filósofos, políticos, músicos, poetas, pintores, ativistas e quejandos. Era difícil encontrar um lugar tão heterogéneo em toda a cidade. Célebres eram as noites em que se transformava na arquibancada onde se podia assistir aos ralis noturnos. Os competidores desciam, a velocidades alucinantes, a avenida D. Nuno Álvares Pereira e, chegados à rotunda da ex-Praça da Renovação (mesmo defronte da esplanada do Café Central), faziam piões e chiavam os pneus de tal forma que o cheiro a borracha queimada fazia-se sentir nas narinas. Só quando aparecia o "Nívea", o velho Volkswagen azul e branco da PSP, é que toda a gente debandava. Horas mais tarde, as corridas recomeçavam noite dentro. Não raro, havia despistes contra as montras de lojas.

Almada está cheia de reformados. Gente que trabalhou uma vida inteira e que contribuiu para agora merecidamente gozar o outono da vida. Mais difícil é conceber que a tolerância chegasse ao ponto de permitirem a transformação da esplanada de um café num casino de rua. Não faltam, na cidade, locais mais apropriados para a reunião e o convívio das cartas. Mas a centralidade do lugar apetece e, sobretudo, a complacência das autoridades e dos empregados do café, permite aos velhos algo que a outras idades seria reprimido. Os velhos já arrastam consigo a penosidade da idade e, muitas vezes, da solidão e da doença. Quem sabe não seria cruel afugentá-los da esplanada, como se fossem pombos portadores de maleitas. Não tarda, a sua vida some-se e os novos suspiram por poder chegar à idade da matiné das suecadas no Café Central.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

De olhos fechados



No começo há a esperança. É ela que motiva o mais pequeno dos meus atos vitais. Sem ela, a minha existência desmorona-se, na passividade, na prisão do instante, sem futuro nem passado. No deserto absoluto das minhas certezas, quando já não sei se vale a pena esperar nem em quê, continua a ser possível esperar. A esperança suporta a ausência absoluta de saber; sobrevive à incerteza e ultrapassa mesmo o fato de nada saber sobre si própria. A esperança pode assumir a extrema pobreza da ignorância radical, mas aparece sempre como um dom que recebo de braços abertos e um sorriso vindo do coração. Ela não aparece assim sem mais nem menos. É, antes de mais, um ato de vontade. Decido ter esperança porque sinto que é a melhor atitude face à vida e a minha opção em ter esperança provoca o seu aparecimento e fá-la aumentar. É o resultado da adesão mais primordial à vida e provoca as melhores disposições. Orienta-me no sentido de tudo aquilo que não tenho e até de tudo que, talvez, nunca terei. É essa a razão pela qual ela pode sobreviver em mim, ainda que na maior das pobrezas.


Em virtude de certos dramas que vivi – alguns deles, aliás, continuam, ainda hoje, a ser territórios de silêncio – talvez tenha acreditado que poderia desperdiçar-me eternamente em desesperanças. Seria o ódio pela vida? Será que todos nós estamos sujeitos, a um dado momento da nossa existência, à ausência de sentimento e de desamor? Em virtude desta incompreensibilidade para comigo mesmo, sabia que a ancilose da incapacidade de amar também pairava sobre mim. Também havia algo, no meu próprio interior, que se estragara: a capacidade de ternura sem a qual a vida perde os seus momentos quotidianos de felicidade…

Relembrar-me criança, retornar aos tempos da inocência plena, é um dos meus exercícios recorrentes, como um encanto a que inexoravelmente não consigo resistir. Entrar em relação com o petiz que fui, relembrar tempos de felicidade imensa assentes unicamente em plataformas de simplicidade, na forma não complexa com que concebia o que me rodeava, comove-me e refresca os diálogos constantes que travo com a minha existência. E neste momento presente, procuro o silêncio mais extremo: não a sonolência, antes uma vigília extremamente aguda, desconsertando os pensamentos perturbadores do dia-a-dia, protegendo o espírito do turbilhão irritante de certos pensamentos, desviando a atenção de tudo quanto oprime o meu quotidiano e abrindo portas ao silêncio e à minha tão almejada paz interior.

De olhos fechados, sei que o amor e os afetos são a maior das esperanças: amar e ser amado; e parece tão simples dito assim, tão singelo para poder ser verdade que quase parece mentira; e repito-o de olhos fechados pois sei-o de cor. *

*(Escrito há quase dois séculos e repescado de um baú poeirento. O sentido das palavras corresponde à matriz, ao tempo e ao contexto em que elas foram vertidas, já que a nossa vida é como uma girândola em constante rotação).




quinta-feira, 29 de março de 2018

Mensagem Poema



Tu... surgiste do nada, simples e hesitante, e aos poucos começaste a ser muito. Tanto que até assusta, arrepia e perturba

Tu... és um menino homem que tanto sabe ser forte,determinado, proteger e acarinhar, como tenta pedir colo, mimo e carinho.

Tu...és o meu maior medo e o meu maior desejo.

Tu...és o meu Rei e eu a tua Rainha.

Tu...és o meu maior sonho e o meu maior pesadelo.

Tu...podes ser tudo para mim e eu não ser nada para ti. Eu...posso ser tudo para ti e tu não seres nada para mim. Mas algo me diz que vamos ser muito um para o outro Que o tempo vai correr, voar, que se vai desvanecer como areia de praia entre os dedos como ondas que batem na areia e regressam ao mar.

Tu... és um mistério que vou desvendar Eu...sou uma poesia que tu vais ler. Nós... vamos ser o que desejarmos, quisermos e pudermos. Nós...vamos ser laços que se vão criar e nós que se vão atar. Tudo pode acontecer... basta um olhar, um toque, um sinal, um cheiro, um som ou um beijo Basta seres fogo e eu palha, basta seres água e eu sede. 

Tu queres... eu quero. Tens medo, eu também. Mas o que é a vida sem medos, desafios e segredos? Uma tela por pintar, um arco íris a preto e branco. Então que caminho seguir? Em frente, para trás não tem nem faz sentido. Se tu virares à direita e eu à esquerda nunca descobriremos o que está no fim do caminho. Seguir em frente é uma escolha, uma opção, uma decisão. Pode ser o sentido errado ou pode ser o sentido mais certo. A certeza é uma, nós escolhemos e decidimos. Parar não é opção, é apenas indecisão. E quem é indeciso não vive, apenas sobrevive. Vamos em frente viver, ou vamos apenas sobreviver? Eu escolho seguir em frente e tu? Tu...só tens que escolher também. 

Maria Carvalho Amador

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Estava sossegada. Gosto de estar sossegada, absorvida no meu mundo autista e porque não? Nunca imaginei que este mundo tão meu fosse tão confuso para quem me rodeia... Todos nós sem excepção vivemos num mundo à parte dos demais, chama-se intro-especção, um casulo fechado onde reina somente a nossa imaginação! Gosto do mundo em que vivo, é meu, confesso que sou egoísta neste meu querer, de fora ficam as realidades que habitualmente consomem o ser humano, também o sou, humana. Não há forma plausivel nem descrições possiveis que abordem o mundo interior. Parte de uma aceitação própria, de uma realidade inconstante, cercada de movimentos tão estranhos mas gratificantes que se transformam numa adrenalina impossível de largar... Gosto de estar sossegada num desassossego permanente que me permite atingir as barreiras impostas pelos outros, alcançar a utopia das irrealidades... Sou eu, tanto falo sobre o meu eu, porque não? Eu e ele somos indivisiveis, não permitimos intrusões, somos uma partilha única e indestrutivel... O desassossego com que me movo é a prova constante de um crime só meu, não existe clausura nem código penal capaz de o condenar...Sou eu, sossegada na minha inconstante tranquilidade em que o constante não é mais que uma fracção de segundos até que a Utopia seja alcançada!
( Reservados os Direitos do Autor Lina Freitas)

domingo, 1 de outubro de 2017

Torcer o pipo

O meu pai torcia o pipo aos pombos, que eu bem me lembro. Mas não que os bichos o enervassem. Acontecia quando eles começavam a ser mais que muitos e a despesa se tornava incomportável ou então porque o pombal estava a ficar demasiado apertado. Eram fritos fritos em azeite, cebola, alho, uma folhinha de louro, refrescados com um pouco de vinho e, depois de tudo bem cozinhado, acrescentava-se um ovo ou dois. Era bom. A carne era escura e densa, muito gostosa. Mas vamos à torcedela de pipo. Eu não suportava ver o meu pai extinguindo a vida dos bichinhos, ver toda a cena afligia-me. Mas conheci o aparato. Lembro-me de vê-lo de costas, os braços tensos, adivinhava-lhe as mãos torcendo o pescoço, pressionando a veia jugular. Eu já só via os cadáveres em cima do muro, cabeças pendendo, olhos meio fechados, o corpo inerte. Ali por perto já havia um alguidar. Depois era escaldar, depenar, amanhar. Nestas tarefas eu ajudava um pouco. Gostava particularmente daquela parte em que o meu pai limpava as vísceras, ver a moela ser cortada e saírem de lá pedaços muito miúdos, mesmo desfeitos, de milho e outros cereais. Depois era a vez de a minha mãe tratar do resto, como já referi acima. O leitor não pense que me fazia impressão comer pombinhos, imaginando-os queriditos e fofinhos como se fossem bebés amorosos e com essa visão alguma tristeza me assolava a cabecita. Não. Afinal de contas eu ajudava (ou vigiava atentamente) na limpeza e preparação destas aves. Comia e pronto. Protegida pela lei da vida, talvez... A ordem natural das coisas, quiçá... Mas não me vejo a torcer pipos, lá isso não.



Gina G


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Naquele Cais



Morri de tanto esperar...
Onde marcaste o encontro, do nosso desencontro!

Sentada naquele banco frio
Olhando para o vazio
Vejo-te em tudo o que passa
Mas quem passa não és tu!

Porque me deixaste só?

Neste silêncio que gela
No meio de tanta gente
Só tenho por companhia
As imagens que eu queria
Da tua presença ... ausente!

De coração apertado 
E com um nó na garganta
As lágrimas molham-me o rosto
Levanto-me do banco frio
Retiro o olhar do vazio
E parto para o lado oposto

E agora sem destino
Vou por aí, não vencida
Meio perdida, por ti esquecida
Continuarei a procurar-te
Um dia hei- de encontrar-te
Em qualquer um Cais... da vida!

Teresa Lino Vicente


terça-feira, 29 de agosto de 2017

O menino perdido

Durante a noite, o menino levantava-se da cama. Caminhava pela casa vazia e às vezes cismava frente às janelas que pensava terem ficado abertas de par em par. Todos os dias era o mesmo. Deixava tudo aberto porque se sentia abandonado. Era uma casa grande, repleta de quartos e corredores intermináveis. Como criança que era, erguia os olhos ao céu e à noite e escutava lá fora o pranto dos campos. Escutava os grilos e as cigarras e julgava-os gambozinos. Nessa noite o menino olhou pela janela com os olhos muito abertos e tudo era uma escuridão enorme por não se saber onde terminavam aqueles frutos tão noturnos da vida. A casa também chorava com ele. Toda aquela casa envelhecia durante o tempo e por dentro o menino agastava-se com o seu próprio silêncio. Trazia em si aquele choro das magnólias e das hortênsias, vergadas sob o seu próprio peso, que já pendem para a terra. Aquele mesmo choro dos presentes nunca oferecidos, daqueles presentes para sempre esquecidos, para sempre ausentes no amor. O menino repetia para consigo mesmo: «um dia morrerei», e voltava a repetir: «tudo isto que eu vejo é transitório, todo este nada que eu sou é absolutamente transitório». E inclinava-se cada vez mais para o silêncio; e no seu coração mais cansado, a morte, terna mas petulante, aconchegava-se no seu peito como se fora o tão ansiado abraço do amor.

Jorge Rebelo

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Aquela pessoa

Há aquela mulher que foi à baixa e veio de metro para cima. Viajas frente a frente com ela e olha-la com curiosidade. Tem pousado no colo sacos de grandes casas, de lojas antigas. Lojas do tempo em que se chamava casas às grandes lojas. Nos sacos estão impressas as datas 1860 e 1923. Hum, casas muito antigas, sim... O ar compenetrado que ela apresenta é o de uma mulher que quer ser uma senhora, olha para o chão com altivez. Olhar para o chão com altivez é um contra-senso porque olhar para o chão revela timidez, pensas. Tu achas que cada mulher é uma senhora e vice-versa, não compreendes este querer parecer. Já doutros quereres entendes tu. «Din-don» soa a coluna de som do metro chamando à razão quem quiser sair na «Próxima Estação». A mulher/senhora/mulher levanta-se debaixo do mesmo olhar altivo, agora fita o vazio em frente. É que se aquela mulher/senhora/mulher não quer ir de encontro às coisas e arranjar nódoas negras é melhor levantar a cabeça, ao menos. Saiu. Oh que pena, nada mais há de interessante para veres.
Gina Grangeia

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

C
Cartas de amor
A mais bonita carta de amor que um dia poderia receber… "És um anjo, daqueles que não precisa de ter asas branquinhas como tantas vezes imaginamos!" Uma perfeita carta de amor me escreveste. Confesso uma coisa: imensas cartas de amor me foram enviadas por muitos seres de luz, mas tenho duas gravadas no mais profundo de mim. A tua e a de outro coração que não o meu, mas que sinto como tal! “ Cartas de amor quem as não tem!” Há quem as escreva nas linhas do tempo, escrevem-nas com gestos, ou também podem escrever com um simples olhar, ou preferem simplesmente falar… Como sabes, sou um misto de todas essas luzes, escrevo as minhas palavras na presença do luar! Não faço rascunho, já para nem me enganar. Escrevo vinda lá dos meus céus, trago alento à minha dor, escrevo com a ânsia do amanhã, de me ser permitido acordar! Escrevo com sentido ou sem ele, tento imitar-me ao me ler. Queria e vou querer sempre que a minha escrita seja uma constante nos confins do meu ser! Amo escrever, mais ainda o que escrevo e aquilo que ainda nem escrevi… enquanto escrevo, navego dentro de mim, neste mundo tão próprio e de tal maneira absorvente que me faz acreditar que estou aqui e agora! São rabiscos, são meus, sou eu...
( Reservados os Direitos do Autor Lina Freitas)

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Poente outonal

Assim vou aparentando a fantasia,
Neste final de tarde de um dia vulgar
Sem algo singular que valha a alegria
Destes versos que me apraz cantar;

Sou rolo de fumo, astro perdido,
Um vapor nulo de inspiração
Com a fé militante do poeta agradecido
Num dia a mais, sem celebração;

E dou-me todo neste poente outonal.
Sou espasmo de luz, brisa dos oceanos,
Aquele que define o capítulo final:
Acabar floricultor num bosque de enganos; 

Vivo há muito com o ensejo de não escapar
A enigmas que tanto me seduzem
Mas vou contendo-me, extraindo fôlegos do ar
Sonhando... sempre que as estrelas fulgurem; 

Amanhã, de novo espreguiçarei ao alvor
Esta vontade que reputo salutar,
Rendido ao melífero clamor
Desta crença por mim aberta de par em par.

Jorge Rebelo

terça-feira, 15 de agosto de 2017

A rapariga do lenço à pirata

Já há muita gente na sala e ainda há pouco a manhã começou. Tira uma senha e diz bom dia ao rapaz que está atrás do balcão. É um moço bem parecido, bastante novo, tem dois piercings, um no nariz, outro na sobrancelha esquerda. É um funcionário diligente, simpático e muito educado.

Ele recorda que, quando era jovem e saudável, também ele era belo. As pessoas olhavam-no na rua e as raparigas, quando seguiam em grupo, viravam a cabeça para trás e davam risadinhas. Ele corava e seguia o seu caminho, lesto, com os olhos ainda mais firmes no chão.

Senta-se numa cadeira vaga, com a senha número setenta na mão e dispõe-se a aguardar a chamada. Pela primeira vez olha com mais atenção em seu redor. A numeração ainda vai nos cinquenta e pouco mas as funcionárias das análises trabalham rápido a extrair a seiva vital. O numerador eletrónico avança com rapidez, à razão de um número por cada três minutos. Ele cronometra o tempo e tenta calcular quanto falta até chegar à sua vez.

Aflige-se com o cenário que o rodeia. Há tanta gente doente! Será que os que estão neste momento lá fora, longe deste ambiente insano, os que ainda trabalham, sorriem despreocupadamente, divertem-se, amam, conduzem a velocidades estonteantes e espreguiçam nas esplanadas da cidade, pensam que vão ficar eternamente sãos, como se fossem deuses? Saberão eles que as coisas não são assim? Que a sombra da morte surge sempre algures numa curva da vida...?

Não param de entrar mais pessoas no espaço cada vez mais atulhado. Os funcionários continuam simpáticos, calmos e diligentes para com os pacientes, como se estivessem a atender clientes numa loja comercial. Ele fica contente por ver que, afinal, as mentalidades sempre mudam; que os jovens trazem uma mais valia aos serviços públicos, devido à sua maior instrução e diferente postura.

Quer relatar o que está a acontecer diante dos seus olhos, ele que é um vulgar utente de um hospital. Aqui não há doutores nem engenheiros, ricos ou pobres: são todos doentes e carecem de tratamento.

Sofrimento é: olhar para o canto da sala e ver uma rapariga – não terá mais de vinte e poucos anos – magricela, a pele como um pergaminho, num rosto de olheiras cavas, como duas fundas negras, expandindo um olhar tristonho, vago, como se fora uma lâmpada apagada.

Acompanham-na os pais. Ampara-se no ombro da mãe. Andar é um custo. Tudo é um custo. O pai carrega, dentro de envelopes acastanhados enormes, os cardápios dos exames, das radiografias, dos tacs, das ressonâncias magnéticas – ele receia que tudo não seja senão um périplo de notas negativas, más notícias, chumbos nas disciplinas vitais à continuação da saúde, da vida, daquela rapariga tão jovem. A rapariga aparenta um estado irremediável.

Ele quer, sobretudo, evadir-se desta visão que o obriga começar a pensar. O lenço às flores. O lenço que ela usa na cabeça, enrolado à moda dos antigos piratas que dantes povoavam o mar das Caraíbas. Um lenço posto de modo tão simples. Um símbolo. O símbolo da quimioterapia.

As coisas de que ele mais gosta são, não necessariamente por esta ordem: os livros; a escrita; as artes; as flores; o campo; o mar; os rios e toda a água corrente; a fruta deliciosa que cai madura das árvores; a brisa que sopra suave no final da tarde; as horas na relva a ver o céu, sonhando; amar e ser amado. Gosta de beijar e ser beijado. Disso gosta muito.

É fácil desviar o olhar. Fixá-lo no branco das paredes, abrir o livro fininho que sempre transporta na mão. Dar uma mirada no final da novela, apaziguando uma curiosidade irreprimível. Olhar repetidamente os ponteiros do relógio, para nada. Remexer no telemóvel, como se fosse um tique e apagar mensagens e chamadas perdidas que já nada significam. Apagar alguém, desse modo, seria fácil. A morte, afinal, mais não é do que uma súbita falha de luz, de energia.

Fecha os olhos. Sempre detestou agulhas. Sente a picada. Dói. O que é a dor? A dor é subjetiva e ninguém a sente do mesmo modo. Ao seu lado há mais lenços de pirata. Alguns doentes não têm sobrancelhas, nem luz, nem gordura, nem consistência, nem esperança.

A vida é esperança. Viver implica (ter) esperança.

Lá fora está frio. Muito frio. O sol brilha ténue no meio do dia azuláceo. Apetecem sempre dias assim. Sente-se vivo. É por ora tudo quanto lhe importa.

Jorge Rebelo

Crónica de férias



Podia escrever uma crónica sobre uns dias fora do comum, diminuídos de horas certas mas aumentados de horas acertadas. Escreveria sobre nuvens de fumo e avistamentos de chamas (não me lembro de férias sem fogos nos noticiários da 1h da tarde) e da raiva do meu país não ter ainda sabido dominar a maldade e a incompetência. Ou talvez apenas sobre a sorte de não ter a casa ardida nem a vinha queimada. 

Podia escrever sobre a sombra benfazeja de livros lidos com uma mão no ar para fazer sombra nos olhos, e areia a soltar-se do meio das páginas. Com uma sesta entre capítulos.
Podia escrever sobre sandes de pão alentejano, com uma maminha saliente num dos lados e um sabor levemente ácido, embrulhadas em papel de cozinha e distribuídas por cinco mochilas, como se os meninos tivessem que partir cedo para a escola. 

Podia escrever sobre fotografias na varanda, (eu muito compenetrada a sorrir para uma foto de família formal e bem enquadrada com eles atrás de mim em fila, e afinal estavam todos a fazer caretas); sobre palavras cruzadas; sobre amizades que continuam aqui como se ainda no pátio da escola; sobre amêijoas com muito molho; sobre o melhor arroz-doce do mundo; sobre a tranquilidade da esplanada às primeiras horas do dia apenas atravessada pelo trinado dos pássaros e pela rega rotativa. 

Podia tentar explicar esta ligação antiga a uma praia com muitos bebés e meninos; ou sobre o rio e as alforrecas e os búzios trazidos pela maré baixa; dissertar sobre noivados, namoros, paixões e respectivos sonhos de eternidade, que se intensificam muito ao pôr do sol.
Ou sobre uma casa de banho com densa nuvem de vapor, sinónimo de família junta.

Mas não me apetece, estou de férias e na esplanada do Pereira não se passa nada de jeito.

Graça Rodrigues

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Êxtase
!

- Sabes o que é o êxtase da vida? Acredito que não. São os sonhos que escorrem da nossa Alma sem medo de ter ou perder... nada se perde, tudo se conquista com lágrimas e atropelos que fazem derreter qualquer pedra de gelo! O coração pode ser a pedra mais rochosa que existe. Mas o sonho, ai o sonho faz milagres, atreve-se a perfura-la sem pedir licença, por linhas travessas penetra silenciosa nos sentidos! Não existem causas perdidas no desbravar dos teus sonhos... não cedo a vontades nem a manipulações, que uma sociedade mais que descrente ditou que seria assim! No livro da tua vida não existe Código Penal, somente uma luz previa que te avisa do perigo. Nos círculos que vamos vivendo tantas e tantas vezes em contra-mão... sabes porquê? Défice de atenção do teu coração. Trata dele. É muito mais que um músculo cardíaco que alimenta uma vida, sempre em completa negação. Esta nossa conversa com os sonhos é somente uma chamada de atenção! Porquê? Não me faças essa pergunta. Não a mim! Sou um ser errante como tu...Doce é o pecado, aquele que possas ter ou esconder, em comparação às maldades infligidas no desespero que dás ao universo do teu coração! Sorri. A vida está aqui! Sonhos jamais serão dúvidas ou incertezas, mas sim leituras perspicazes e misteriosas que habitam no teu ser... deleita-te no êxtase dos teus sentidos, das ânsias faz longos caminhos, doces passagens enigmáticas que vão escorrendo em segredo pelos teus dedos! Dou-te a minha mão...
( Reservados os Direitos do Autor Lina Freitas)

domingo, 13 de agosto de 2017

A sombra dos dias



O ruído do frigorífico,
No decurso da tarde serena,
É, dos sons, o magnífico,
O algoz da minha pena
(Pena que não tenha pena…)

E há os gatos que miam,
As portas que batem,
Os ventos que assobiam,
Os cães que latem
(Nem que me matem!)

E o ranger da mobília,
Os estalos da madeira,
O chá de tília,
O estrépito da feira?
(Hoje não é terça-feira!)

E a escrita consistente?
(O brainstorm da treta?)
A prosa de toda a gente,
Não esta poesia insurreta!
(Como é incorreta!)

Foi a cadeira que estalou,
O silêncio que me bateu,
Ninguém falou ou miou,
A não ser a cabeça... que sou eu?
(Não quem me concebeu!)

Cá dentro e lá fora,
Os sons do meu dia,
A rotina que não melhora
As laudas de uma tarde vazia.
(E toda esta heresia?..)

Escrever é poder sair.
O belo pode esperar,
Como agora mesmo ungir
O que não se pode sarar.
(Escrever é sem olhos chorar...)


Jorge Rebelo












Consenso e conflito


As lutas contínuas desgastam-nos, envelhecem-nos, separam-nos. Prefiro de longe o consenso ao conflito, a concórdia à guerra. E quando discordo em absoluto de alguém, inamovível e inconversável, regra geral, deixo-o falar sozinho. Evito pessoas inconciliáveis, que nunca dão o braço a torcer. Sempre que possível, evito o conflito, a escalada originada por uma discussão, que, não raro, descamba na irracionalidade e no débito de descargas emocionais absurdas, desajustadas e ocas, proferidas apenas com o fito de magoar.

Nessa fase, aquilo que parecia ser à partida uma saudável troca de argumentos, um desajuste que se queria ver ajustado, transforma-se numa espiral de agressividade. Naturalmente por defeito meu, que suspeito tenha a ver com a verbosidade enfática com que defendo certas teses, acontece que muitas pessoas sentem um prazer quase mórbido em me contrariar. Não que a atitude de contra-argumentar, a clivagem, seja pouco salutar, ou construtivamente incorreta. Antes pelo contrário. E não foram raras as vezes em que, à conversa com pessoas muito mais sensatas e lúcidas do que eu, depois de alguma introspeção, me tenha forçado a mudar de pensamentos e atitudes. O cerne da questão é outro. 

Refiro-me naturalmente à guerrilha em que rapidamente se pode transformar uma troca de argumentos contrários e inconciliáveis. E as tensões são sempre superiores quando as principais linhas de clivagem se situam no plano da moral, ou no âmago das formas primárias de subjetivar que respeitam a cada um de nós.

Quando a discussão tem por temáticas realidades mundanas, as tensões são indubitavelmente mais baixas, pois a capacidade negocial e conciliatória é maior. O que eu rejeito liminarmente é a querela fácil e brejeira e o transbordar agressivo de quem, por recusar ficar na 'mó de baixo', independentemente da justeza das ideias que contradita e apenas porque sente a sua estima maculada por um argumento que julga lhe está a ser imposto, reage com desproporcionalidade.

Todos queremos ser inovadores, donos da razão, seres únicos, dotados de uma armadura moral e de uma estrutura de pensamento assertiva. A natureza humana assim nos fez, dessa maneira formatada e irrevogável.

Eu sou, sobretudo, um homem de paz, de mimos e de amor, assumidamente lamechas, embora tenha um feitio assaz complicado. Sou temperamental e agridoce: tanto fervo em pouca água e descampo, como caio na lisura. Acho que vou envelhecer irremediavelmente assim. Gosto do bom humor e da doçura. Detesto a contenda e a crispação; e muitas vezes as minhas atitudes de 'fuga', e uma certa não sociabilidade, são confundidas com cobardia.

Há justamente quem pense que para mantermos íntegra a nossa personalidade, para nos sentirmos valorizados como pessoas, devemos ter sempre pronta na ponta da língua, uma resposta implacável e demolidora, como fora uma espada apta a ser desembainhada, perante um argumento ou uma crítica que nos desagrade.

Deixo essa gloriosa tarefa para os fazedores de opinião que ganham a vida participando em debates e contendas. Tenho uma estrutura de pensamento, arquétipos morais, vícios, preconceitos, contradições, tiques, e não sei quantos mais defeitos, com mais de meio século de sedimentação. Admito e agradeço que me mostrem o outro lado do espelho, me façam mudar de opinião, me coloquem num lugar onde a forma como perspetivo as coisas suporte um olhar diferente e me conduza a conclusões opostas. Não tenho é pachorra para corridinhas para ver quem chega em primeiro lugar, digladiações frustres, contendas onde a regra é ganhar o que berrar mais alto os seus argumentos e for capaz de colocar a voz duas oitavas acima.

Em troca desta consciente abdicação, aceito para a minha vida um acrescento de solidão, uma sociabilidade mitigada e uma seletividade cada vez maior na forma como escolho aqueles com quem interajo no tempo e no espaço - aquele que resta depois do trabalho, das minhas leituras, da minha escrita, da minha música, dos meus pensamentos. Depois dos meus tão queridos desertos de solidão, viro-me naturalmente para aqueles com quem tenho empatias, os que admiro e os que amo.

Jorge Rebelo

sábado, 12 de agosto de 2017

Os amigos



Luz sombra
palavras silêncio
tecem-se neste tecido
os amigos
ficam lá onde os desejamos
aparecem ou desaparecem

Respeitam a nossa história
sem interrogações
sem reticências
sem exclamações
(isto podia ser um exercício de pontuação)
sempre lá onde os desejamos

Pressentimo-los por onde passamos
Pendurados nas árvores
Parados atrás dos arbustos
Suspensos das nuvens
Andando lado a lado
pelos ínvios caminhos que traçamos

Sombras e luzes
presenças diáfanas
que soltam a sua perfeição
na esteira da nossa imperfeição

À solta nos risos
nos abraços
nos silêncios
nos recuos
nos amuos
na vida

Velam os nossos passos
e dão-nos a mão quando cegamos

Imperfeição esbatida pelo sulco
de outra mão

Nunca a palavra será imoderada
para falar desse oceano
em que mergulhamos
repetidamente
e sempre com a mesma alegria
da dádiva
e da limpidez do olhar

Maria Eugénia Alves







Às vezes penso

Às vezes penso que não há chuva que me chegue, momentos que me bastem, nem sequer recordações de risos que me preencham. Por outras palavras...