Amanhecer...calmo e tranquilo, ondas suaves desfazendo-se em branca espuma beijando docemente a areia dourada. Tarde de sol brilhante e quente, entre a multidão estou só mas não solitária... guardo em mim a atracção quase fatal por uma praia linda, um areal imenso, emoldurado por um límpido céu azul e um mar de tranquilidade. Anoitecer...um pôr do sol vermelho em bola de fogo descendo lentamente sob o mar, o areal deserto, um silêncio crescente e apenas o som das gaivotas como música de fundo. Noite...caindo lenta e suavemente, o cheiro a maresia inundando os meus sentidos, uma brisa leve e fresca que vai esfriando ao longo da noite. Mais um dia termina e a paixão de há 30 anos continua forte dentro de mim, e o meu coração batendo sempre forte...pela praia da minha vida.
Um espaço aberto e de partilha, com temáticas livres, onde diversos autores publicarão textos da sua autoria
quarta-feira, 2 de agosto de 2017
A mulher que ama de mais
"Aqui neste mundo virtual podemos ser tudo, ou nem sermos nada, aqui está retratado uma só coisa, a solidão de alguém, incompreendida pela sociedade que a rodeia e que através da alma que escorre nas teclas de um equipamento informático, dá vida à sua vida, que a incompreensão social obrigou, seja eu quem for, não importa a forma física, a beleza ou falta dela, importa sim transmitir a outrem (tela), que o compreenda, que o preencha… aqui não existem traições físicas nem mentais, existem somente almas que falam. Excelente noite!”
Excerto da Obra " A mulher que ama demais!"
Lina Freitas
Falando com as entranhas
Não me acostumo com o que não me faz feliz, revolto-me quando julgo necessário e encho o meu coração com a esperança de momentos melhores, mas não deixo que ele se afogue nela. Se achar que preciso de voltar atrás, volto, pois, como dizia Montaigne, a única forma de não cair no precipício é precisamente não dar o passo em frente e recuar.
Às vezes suponho erroneamente que já não consigo falar com as minhas entranhas, com as fibras que me forram o interior, mas, não raro, engano-me e reencontro sempre essa hábil capacidade, que pode ficar adormecida durante algum tempo, mas fervilha dentro de mim; e, cedo ou tarde, sempre emerge.
Em boa verdade, todos nós somos de algum modo prisioneiros das nossas emoções e da maneira como formámos os valores com que construímos a nossa personalidade. Devemos prestar sempre um tributo sério à coerência e à verdade; e, sobretudo, aceitar-nos como somos, não desvirtuando a estrutura vital da nossa personalidade, pois ela, uma vez formada e amadurecida, dificilmente muda.
Somos seres únicos, incapazes de ser copiados por quaisquer mimetismos de trazer por casa e essa diferença é uma das nossas maiores riquezas.
Nesta vida, das poucas coisas que podemos ter algum controlo e responsabilidade, é precisamente sobre o nosso comportamento, sobre as escolhas e decisões e de pouco vale imputar a outrem este ónus já que, para um adulto formado, viver é, sobretudo, escolher os caminhos e tomar decisões, com a plena consciência de que a inércia não deixa de ser ela mesma também a assunção de uma posição: o nada fazer.
Na base de qualquer conflito existe sempre um ou vários problemas e o conflito só será ultrapassado na medida em que os problemas a ele subjacentes sejam resolvidos - lógica pura e uma frase digna de La Palice, dirão os entendidos! Mas os problemas são sempre suscetíveis de ser abordados de uma forma lógica e racional e podem ser explicitados por um conjunto de fatores que permitam uma resposta ou solução – verdade que tenho hoje por assente – de forma a investir toda a energia na sua resolução.
Aconselho-me a mim mesmo, nesta hora impúbere da madrugada, fugir ao máximo do envolvimento na esfera emocional do conflito: o chamado efeito evitamento, pois é isso que desgasta, já que o que não tem remédio remediado está.
Tenho dito e agora vou dormir um sono de bebé, pelo menos assim o espero.
Sou filha das gentes do mundo
Sou filha das gentes do mundo, sobrevivente de um planeta que não conheço, diariamente busco almas perdidas em selvas de betão, sou descrente naqueles que querem viver na solidão... Já não choro, já não grito pelas minhas gentes, aguardo cada segundo dos meus dias que estas almas que vivem dentro de mim se resignem, se dignem a serem elas mesmas... Destruam-se as muralhas com que se ergueram se calem para sempre as batalhas que em tempos idos se instalaram. Já não choro, já não grito, prossigo sozinha o meu caminho, aguardo pelas minhas gentes às quais eu pertenço!
( Reservados os Direitos do Autor Lina Freitas)
Lina Freitas
A subir
Hoje de manha quando cheguei à rua, a opacidade da manhã envolveu-me com aquela luz especial, a luz de outono que adoça os contornos e envolve a paisagem em mistério. O céu plúmbeo, ameaçando chuva, e a chilreada inusitada dos passarinhos que pernoitam na copa das árvores, foram os primeiros registos do dia que acabava de começar. No passeio fronteiro ao prédio onde habito, os carros, com os vidros embaciados do orvalho da noite, engalanavam-se de folhas escarlates e amarelas, mas, à medida que a luz se descobria, a quietude começava a soçobrar.
Todos o dias, depois de tomar café no sítio do costume, conduzo por uma espécie de avenida, uma ladeira sem bermas, com pouco mais de mil metros, bastante íngreme por sinal, que rapidamente me leva ao centro da cidade; e, não raro, cruzo-me com várias mães que levam os filhos pela mão para a escola. As bermas, como referi, são praticamente inexistentes e os carros, regra geral, transitam a velocidades pouco recomendáveis.
No regresso a casa, desta vez a subir, deparo-me com um cenário idêntico: pessoas que, ou por não terem transporte próprio, ou dinheiro para o transporte público, dirigem-se a pé para casa. O caminho é penoso, uma subida bastante inclinada, especialmente para quem já vem cansado de uma jornada de trabalho extenuante, quantas vezes com crianças pela mão. É comum cruzar-me com velhinhos que fazem diariamente o mesmo trajeto e, por incrível que pareça, até já me deparei com pessoas com deficiências físicas.
Este cenário não é uma visão inerente à estação que nos bateu de mansinho à porta, mas antes, por infelicidade, uma realidade que, de tão corriqueira, já não toca o coração de pedra dos automobilistas que seguem afanosamente no quentinho das suas casinhas de quatro rodas, embalados pelo som do rádio sintonizado na estação preferida.
Não sou melhor do que ninguém: sou um ser igualmente egoísta, que pensa primeiro em si e, depois, remotamente nos outros. Enfim, sou feito da mesma massa com que se fabricam os seres imperfeitos. Isto não significa que não tenha coração, que a consciência não me roa, que não questione o direito sublime de viajar no conforto do meu popó, enquanto os menos validos seguem com sacrifício a pé, ao frio, à chuva e à mercê de um condutor menos lesto que os possa passar a ferro. O que fiz para remediar isto? Para aplacar a minha má consciência? Ofereci boleia, por mais de uma vez, a duas senhoras que subiam com crianças pela mão e também a uma velhinha e, sem exceção, todas recusaram a minha oferenda. Não apresentaram justificação para a negação. Limitaram-se a sorrir e a dizer: "obrigado, mas não é preciso". Não as censuro. A misericórdia pelos outros, por vezes, humilha, ofende, confronta-nos com a nossa própria infelicidade; e os tempos são complicados, a criminalidade lateja em cada esquina. Afinal, de boas intenções está o inferno cheio. E quem não lhes diz a eles, transeuntes incautos, que eu não sou o diabo encarnado pessoa?
Tempo de viver
A vida está lá fora, abraça-a;
Derruba as paredes que ergueste dentro de ti
E as que vês intransponíveis pelo mundo!
Percorre sem medo todos os caminhos,
Transpõe destemido todas as barreiras,
E se possível não for, faz delas escadas, e sobe-as!
A vida está dentro de ti, descobre-a;
Levanta o véu com que cobriste os teus olhos,
Retira duras as teias em que enrolaste as mãos,
Liberta o corpo dos pés de chumbo que lhe impuseste,
Limpa a alma das impurezas dos pretéritos doídos,
E livra-te das amarras da ignorância e do medo!
A vida está por todo o lado, procura-a;
Destrói para sempre as prisões em que te encerras,
Atira para longe os cadeados que te manietam,
Sorri às flores, aos bichos e às adversidades,
Busca força no mar, na terra, na chuva e no vento,
Descansa ao sol e aquece-te no frio,
Abraça os que te amam, e ama-os!
A vida é para ser vivida, vive-a;
Respira fundo até o peito te doer
Aproveita cada dia da tua existência
Lembra-te: cada minuto é tempo de viver!
ASC
27/07/2016 - revisto
terça-feira, 1 de agosto de 2017
Revisitando o crepúsculo
Gosto de me guiar, e ao mundo, pelos crepúsculos. A mim, porque me situam no tempo e no espaço; ao mundo, porque são reveladores da normalidade essencial à continuidade da vida.
Havia algum tempo que não era chamada à minha varanda pelo espetáculo crepuscular. Talvez porque os dias têm sido uma sucessão de ocasos, embora alguns entre eles tenham tido o mérito de ver o tempo suspenso.
Ah! Como é bom que o tempo e a hora não tenham importância alguma! E como é bom também não perder o tino ao tempo e à hora, quando é o próprio mundo a fornecer as coordenadas porque estamos atentos e paramos para o contemplar.
Afinal, quando o mundo nos chama à terra somos inteiros: necessariamente racionais porque situados espaço-temporalmente, emocionais o bastante para atentarmos no Belo.
E quando assim é, tenho para mim que nada está ainda perdido.
ASC
( direitos reservados)
Ana Sofia Carvalho
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