segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Naquele Cais



Morri de tanto esperar...
Onde marcaste o encontro, do nosso desencontro!

Sentada naquele banco frio
Olhando para o vazio
Vejo-te em tudo o que passa
Mas quem passa não és tu!

Porque me deixaste só?

Neste silêncio que gela
No meio de tanta gente
Só tenho por companhia
As imagens que eu queria
Da tua presença ... ausente!

De coração apertado 
E com um nó na garganta
As lágrimas molham-me o rosto
Levanto-me do banco frio
Retiro o olhar do vazio
E parto para o lado oposto

E agora sem destino
Vou por aí, não vencida
Meio perdida, por ti esquecida
Continuarei a procurar-te
Um dia hei- de encontrar-te
Em qualquer um Cais... da vida!

Teresa Lino Vicente


terça-feira, 29 de agosto de 2017

O menino perdido

Durante a noite, o menino levantava-se da cama. Caminhava pela casa vazia e às vezes cismava frente às janelas que pensava terem ficado abertas de par em par. Todos os dias era o mesmo. Deixava tudo aberto porque se sentia abandonado. Era uma casa grande, repleta de quartos e corredores intermináveis. Como criança que era, erguia os olhos ao céu e à noite e escutava lá fora o pranto dos campos. Escutava os grilos e as cigarras e julgava-os gambozinos. Nessa noite o menino olhou pela janela com os olhos muito abertos e tudo era uma escuridão enorme por não se saber onde terminavam aqueles frutos tão noturnos da vida. A casa também chorava com ele. Toda aquela casa envelhecia durante o tempo e por dentro o menino agastava-se com o seu próprio silêncio. Trazia em si aquele choro das magnólias e das hortênsias, vergadas sob o seu próprio peso, que já pendem para a terra. Aquele mesmo choro dos presentes nunca oferecidos, daqueles presentes para sempre esquecidos, para sempre ausentes no amor. O menino repetia para consigo mesmo: «um dia morrerei», e voltava a repetir: «tudo isto que eu vejo é transitório, todo este nada que eu sou é absolutamente transitório». E inclinava-se cada vez mais para o silêncio; e no seu coração mais cansado, a morte, terna mas petulante, aconchegava-se no seu peito como se fora o tão ansiado abraço do amor.

Jorge Rebelo

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Aquela pessoa

Há aquela mulher que foi à baixa e veio de metro para cima. Viajas frente a frente com ela e olha-la com curiosidade. Tem pousado no colo sacos de grandes casas, de lojas antigas. Lojas do tempo em que se chamava casas às grandes lojas. Nos sacos estão impressas as datas 1860 e 1923. Hum, casas muito antigas, sim... O ar compenetrado que ela apresenta é o de uma mulher que quer ser uma senhora, olha para o chão com altivez. Olhar para o chão com altivez é um contra-senso porque olhar para o chão revela timidez, pensas. Tu achas que cada mulher é uma senhora e vice-versa, não compreendes este querer parecer. Já doutros quereres entendes tu. «Din-don» soa a coluna de som do metro chamando à razão quem quiser sair na «Próxima Estação». A mulher/senhora/mulher levanta-se debaixo do mesmo olhar altivo, agora fita o vazio em frente. É que se aquela mulher/senhora/mulher não quer ir de encontro às coisas e arranjar nódoas negras é melhor levantar a cabeça, ao menos. Saiu. Oh que pena, nada mais há de interessante para veres.
Gina Grangeia

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

C
Cartas de amor
A mais bonita carta de amor que um dia poderia receber… "És um anjo, daqueles que não precisa de ter asas branquinhas como tantas vezes imaginamos!" Uma perfeita carta de amor me escreveste. Confesso uma coisa: imensas cartas de amor me foram enviadas por muitos seres de luz, mas tenho duas gravadas no mais profundo de mim. A tua e a de outro coração que não o meu, mas que sinto como tal! “ Cartas de amor quem as não tem!” Há quem as escreva nas linhas do tempo, escrevem-nas com gestos, ou também podem escrever com um simples olhar, ou preferem simplesmente falar… Como sabes, sou um misto de todas essas luzes, escrevo as minhas palavras na presença do luar! Não faço rascunho, já para nem me enganar. Escrevo vinda lá dos meus céus, trago alento à minha dor, escrevo com a ânsia do amanhã, de me ser permitido acordar! Escrevo com sentido ou sem ele, tento imitar-me ao me ler. Queria e vou querer sempre que a minha escrita seja uma constante nos confins do meu ser! Amo escrever, mais ainda o que escrevo e aquilo que ainda nem escrevi… enquanto escrevo, navego dentro de mim, neste mundo tão próprio e de tal maneira absorvente que me faz acreditar que estou aqui e agora! São rabiscos, são meus, sou eu...
( Reservados os Direitos do Autor Lina Freitas)

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Poente outonal

Assim vou aparentando a fantasia,
Neste final de tarde de um dia vulgar
Sem algo singular que valha a alegria
Destes versos que me apraz cantar;

Sou rolo de fumo, astro perdido,
Um vapor nulo de inspiração
Com a fé militante do poeta agradecido
Num dia a mais, sem celebração;

E dou-me todo neste poente outonal.
Sou espasmo de luz, brisa dos oceanos,
Aquele que define o capítulo final:
Acabar floricultor num bosque de enganos; 

Vivo há muito com o ensejo de não escapar
A enigmas que tanto me seduzem
Mas vou contendo-me, extraindo fôlegos do ar
Sonhando... sempre que as estrelas fulgurem; 

Amanhã, de novo espreguiçarei ao alvor
Esta vontade que reputo salutar,
Rendido ao melífero clamor
Desta crença por mim aberta de par em par.

Jorge Rebelo

terça-feira, 15 de agosto de 2017

A rapariga do lenço à pirata

Já há muita gente na sala e ainda há pouco a manhã começou. Tira uma senha e diz bom dia ao rapaz que está atrás do balcão. É um moço bem parecido, bastante novo, tem dois piercings, um no nariz, outro na sobrancelha esquerda. É um funcionário diligente, simpático e muito educado.

Ele recorda que, quando era jovem e saudável, também ele era belo. As pessoas olhavam-no na rua e as raparigas, quando seguiam em grupo, viravam a cabeça para trás e davam risadinhas. Ele corava e seguia o seu caminho, lesto, com os olhos ainda mais firmes no chão.

Senta-se numa cadeira vaga, com a senha número setenta na mão e dispõe-se a aguardar a chamada. Pela primeira vez olha com mais atenção em seu redor. A numeração ainda vai nos cinquenta e pouco mas as funcionárias das análises trabalham rápido a extrair a seiva vital. O numerador eletrónico avança com rapidez, à razão de um número por cada três minutos. Ele cronometra o tempo e tenta calcular quanto falta até chegar à sua vez.

Aflige-se com o cenário que o rodeia. Há tanta gente doente! Será que os que estão neste momento lá fora, longe deste ambiente insano, os que ainda trabalham, sorriem despreocupadamente, divertem-se, amam, conduzem a velocidades estonteantes e espreguiçam nas esplanadas da cidade, pensam que vão ficar eternamente sãos, como se fossem deuses? Saberão eles que as coisas não são assim? Que a sombra da morte surge sempre algures numa curva da vida...?

Não param de entrar mais pessoas no espaço cada vez mais atulhado. Os funcionários continuam simpáticos, calmos e diligentes para com os pacientes, como se estivessem a atender clientes numa loja comercial. Ele fica contente por ver que, afinal, as mentalidades sempre mudam; que os jovens trazem uma mais valia aos serviços públicos, devido à sua maior instrução e diferente postura.

Quer relatar o que está a acontecer diante dos seus olhos, ele que é um vulgar utente de um hospital. Aqui não há doutores nem engenheiros, ricos ou pobres: são todos doentes e carecem de tratamento.

Sofrimento é: olhar para o canto da sala e ver uma rapariga – não terá mais de vinte e poucos anos – magricela, a pele como um pergaminho, num rosto de olheiras cavas, como duas fundas negras, expandindo um olhar tristonho, vago, como se fora uma lâmpada apagada.

Acompanham-na os pais. Ampara-se no ombro da mãe. Andar é um custo. Tudo é um custo. O pai carrega, dentro de envelopes acastanhados enormes, os cardápios dos exames, das radiografias, dos tacs, das ressonâncias magnéticas – ele receia que tudo não seja senão um périplo de notas negativas, más notícias, chumbos nas disciplinas vitais à continuação da saúde, da vida, daquela rapariga tão jovem. A rapariga aparenta um estado irremediável.

Ele quer, sobretudo, evadir-se desta visão que o obriga começar a pensar. O lenço às flores. O lenço que ela usa na cabeça, enrolado à moda dos antigos piratas que dantes povoavam o mar das Caraíbas. Um lenço posto de modo tão simples. Um símbolo. O símbolo da quimioterapia.

As coisas de que ele mais gosta são, não necessariamente por esta ordem: os livros; a escrita; as artes; as flores; o campo; o mar; os rios e toda a água corrente; a fruta deliciosa que cai madura das árvores; a brisa que sopra suave no final da tarde; as horas na relva a ver o céu, sonhando; amar e ser amado. Gosta de beijar e ser beijado. Disso gosta muito.

É fácil desviar o olhar. Fixá-lo no branco das paredes, abrir o livro fininho que sempre transporta na mão. Dar uma mirada no final da novela, apaziguando uma curiosidade irreprimível. Olhar repetidamente os ponteiros do relógio, para nada. Remexer no telemóvel, como se fosse um tique e apagar mensagens e chamadas perdidas que já nada significam. Apagar alguém, desse modo, seria fácil. A morte, afinal, mais não é do que uma súbita falha de luz, de energia.

Fecha os olhos. Sempre detestou agulhas. Sente a picada. Dói. O que é a dor? A dor é subjetiva e ninguém a sente do mesmo modo. Ao seu lado há mais lenços de pirata. Alguns doentes não têm sobrancelhas, nem luz, nem gordura, nem consistência, nem esperança.

A vida é esperança. Viver implica (ter) esperança.

Lá fora está frio. Muito frio. O sol brilha ténue no meio do dia azuláceo. Apetecem sempre dias assim. Sente-se vivo. É por ora tudo quanto lhe importa.

Jorge Rebelo

Crónica de férias



Podia escrever uma crónica sobre uns dias fora do comum, diminuídos de horas certas mas aumentados de horas acertadas. Escreveria sobre nuvens de fumo e avistamentos de chamas (não me lembro de férias sem fogos nos noticiários da 1h da tarde) e da raiva do meu país não ter ainda sabido dominar a maldade e a incompetência. Ou talvez apenas sobre a sorte de não ter a casa ardida nem a vinha queimada. 

Podia escrever sobre a sombra benfazeja de livros lidos com uma mão no ar para fazer sombra nos olhos, e areia a soltar-se do meio das páginas. Com uma sesta entre capítulos.
Podia escrever sobre sandes de pão alentejano, com uma maminha saliente num dos lados e um sabor levemente ácido, embrulhadas em papel de cozinha e distribuídas por cinco mochilas, como se os meninos tivessem que partir cedo para a escola. 

Podia escrever sobre fotografias na varanda, (eu muito compenetrada a sorrir para uma foto de família formal e bem enquadrada com eles atrás de mim em fila, e afinal estavam todos a fazer caretas); sobre palavras cruzadas; sobre amizades que continuam aqui como se ainda no pátio da escola; sobre amêijoas com muito molho; sobre o melhor arroz-doce do mundo; sobre a tranquilidade da esplanada às primeiras horas do dia apenas atravessada pelo trinado dos pássaros e pela rega rotativa. 

Podia tentar explicar esta ligação antiga a uma praia com muitos bebés e meninos; ou sobre o rio e as alforrecas e os búzios trazidos pela maré baixa; dissertar sobre noivados, namoros, paixões e respectivos sonhos de eternidade, que se intensificam muito ao pôr do sol.
Ou sobre uma casa de banho com densa nuvem de vapor, sinónimo de família junta.

Mas não me apetece, estou de férias e na esplanada do Pereira não se passa nada de jeito.

Graça Rodrigues

Às vezes penso

Às vezes penso que não há chuva que me chegue, momentos que me bastem, nem sequer recordações de risos que me preencham. Por outras palavras...